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Revolução Cubana

 

 

Revolução cubana

 

Precisamente em janeiro de 1959, um grupo de jovens guerrilheiros tomava o poder em Cuba, ilha do caribe, localizada a apenas 90 milhas do litoral da Flórida.

A revolução Cubana rompeu com os laços que fizeram da ilha quase que uma extensão dos EUA ao longo do século XX. Inteiramente subordinado aos interesses norte-americanos, o estado Cubano comportou-se de forma subserviente durante todo o período pré-revolucionário aceitando imposições humilhantes e revelando com freqüência a fragilidade de sua soberania.

A vitória de Fidel e seus camaradas no final dos anos 50 e a juventude dos líderes guerrilheiros exerceram rapidamente enorme influência no imaginário de todos aqueles que no mundo lutavam contra a opressão e o imperialismo capitalista. E não poderia ser de outra forma, afinal o encerramento da ditadura pró-EUA significou uma brusca ruptura na longa e trágica história de submissão do continente aos interesses geopolíticos elaborados nos elegantes salões da casa branca.

A ocupação da ilha pelos espanhóis ocorreu no final do século XV e imediatamente seu território foi alvo de intensa exploração econômica imposta pelo estado metropolitano  revelando sua extraordinária vocação para a agricultura de exportação. A inserção em massa de trabalhadores negros escravos de origem africana faz parte desse cenário em que o objetivo maior era transferir para a Europa as riquezas aqui produzidas.

No século XIX, as terras de Cuba encontravam-se dominadas pelo plantio da cana-de-açúcar, formando um imenso tapete verde sob o qual se escondia tanta miséria. Mesmo sendo uma colônia espanhola, o principal comprador do açúcar produzido na ilha eram os EUA e cresciam os interesses de empresas norte-americanas preocupadas em ampliar seus negócios com os Cubanos.

Nesse momento, quase toda a América já havia conquistado sua independência em relação às metrópoles européias, exceção feita a Cuba que apesar de ter sido uma das áreas pioneiras na presença espanhola na América, estava condenada a ser uma dos últimos redutos do colonialismo ibérico. Somente no final do século XIX, encontramos a gênese do Estado Cubano emancipado onde se destacou a figura de Jose Martí.

O movimento separatista declarou guerra à Espanha contando apenas com um improvisado exército constituído predominantemente por negros e sofreu duro golpe, no início dos combates, com a morte de Martí. Mesmo sem contar com seu principal líder, os cubanos obtiveram significativas vitórias e a guerra caminhava para seu final quando ocorre a intervenção dos EUA no conflito. Acusando os espanhóis de afundarem um navio americano, o "Maine", as autoridades norte-americanas declararam seu apoio aos colonos e enviaram soldados para a guerra contra a Espanha.

O fato é que Cuba representava muito para a engenhosa política externa dos EUA. A localização geográfica da ilha coloca-a na zona de absoluta segurança estratégica dentro dos planos norte-americanos, ou seja, sua área incorpora-se aos limites estabelecidos como vitais para a integridade dos EUA. Não bastando isso, os interesses comerciais eram imensos, pois empresas americanas eram as maiores compradoras do açúcar cubano e inúmeros executivos olhavam para a ilha com expectativa de desenvolver novos projetos.

Vencida, a Espanha foi obrigada a ceder o controle dos territórios de Porto Rico e das Filipinas para os EUA e militares americanos assumiram o governo de Cuba assim que os espanhóis reconheceram a derrota. Em janeiro de 1898, selava-se o triste episódio de transferência da dominação espanhola para a dominação norte-americana. A emenda Platt, texto imposto e anexado a constituição cubana em 1901, tornava legítima qualquer intervenção militar dos EUA no interior da ilha e revelava o alto grau de condescendência das autoridades Cubanas. Além disso, o governo de Cuba foi obrigado a entregar uma faixa de seu litoral para que os norte-americanos montassem uma base militar na baía de Guantánamo.

Nas décadas seguintes, ampliou-se de forma considerável a participação do capital americano nos negócios da ilha atuando livremente, sem restrições, na área do transporte, comércio exterior, mineração, turismo e, sobretudo, àqueles vinculados a produção e comercialização do açúcar.

No plano político, a primeira metade do século XX foi caracterizada pela sucessão de governos despóticos que, com suas ações, consolidaram a posição de Cuba de "quintal dos EUA". As pessoas ligadas aos setores políticos contrários a esse modelo foram duramente perseguidos, presos, torturados, e várias lideranças de oposição acabaram assassinadas. Em Havana, capital do país, a corrupção impregnava-se em todas as esferas do poder público e em suas ruas os cassinos, o gangsterismo e a prostituição propagavam-se em escala geométrica.

No início dos anos 50, os dirigentes da oposição perderam definitivamente a esperança em relação à possibilidade de chegar ao poder pelas vias democráticas. O caminho defendido por esses grupos descontentes com o quadro sócio-político na ilha passa a ser a luta armada. Deve-se ressaltar que o bloco oposicionista ainda não tem, nesse momento, um perfil ideológico definido, apresentando propostas vagas que condenavam a ditadura cubana e procuravam resgatar os princípios patrióticos sugeridos por Jose Martí no final do século XIX.

Em 1953, ocorre a primeira ação armada organizada pela oposição quando um pequeno grupo de homens tentou assumir o controle sobre o Quartel de Moncada, um dos principais regimentos militares do país, a poucos quilômetros da cidade de Santiago de Cuba. A insurreição acabou resultando num enorme fracasso e as forças da repressão não tiveram dificuldades em prender inúmeros envolvidos, entre os quais encontrava-se o jovem advogado Fidel Castro.

 

Ao sair da prisão, depois de quase dois anos de cárcere, Fidel e seus companheiros continuavam a defender que somente uma nova ação armada poderia dar aos Cubanos a democracia e a soberania. A corrupção eleitoral e a violência da ditadura de Fulgêncio Batista demonstravam claramente para seu grupo a necessidade de preparar, agora com maior cuidado, um grande movimento revolucionário que contasse com o apoio de camponeses e operários.

No exílio em terras mexicanas Fidel Castro, em companhia de Camilo Cienfuegos Ernesto Che Guevara e de seu irmão Raul, organiza o movimento guerrilheiro 26 de julho, referência à data da ação que tentou tomar o quartel de Moncada. Em 1956, o grupo guerrilheiro, com apenas 82 homens, parte em direção a Cuba, onde desembarca na região de Sierra Maestra. Em janeiro de 1959, após três anos de duros combates, os revolucionários assumem o poder na capital encerrando o longo período da ditadura de Batista.

As primeiras decisões do governo de Fidel, no plano interno, demonstravam uma brusca mudança de rumo. Terras foram confiscadas, empresas estrangeiras nacionalizadas, a tarifa de energia elétrica reduzida, enfim, medidas que acabaram gerando imensa euforia popular. No plano externo, o governo de Fidel procurou restabelecer as relações comerciais e diplomáticas com a URSS, apesar de publicamente demonstrar uma posição de eqüidistância em relação ao conflito EUA-URSS.

Essa neutralidade Cubana em pleno cenário da guerra fria foi vista pela Casa Branca com grande desconfiança. Se, por um lado, o perfil do governo revolucionário se apresentava divorciado dos interesses americanos, por outro lado resistia a um imediato alinhamento com a URSS. Essa nova postura de Cuba não impediu a agressiva reação dos EUA inicialmente através do boicote econômico e depois com a tentativa de invasão da baía dos porcos.

Em abril de 1961, grupos contra-revolucionários formados principalmente por mercenários e refugiados cubanos no exílio invadiram a ilha através da Baía dos Porcos. A ação foi longamente planejada pela Central de Inteligência Americana (CIA), teve a aprovação do jovem presidente John Kennedy e pretendia, em última instância, derrubar o governo Castrista. A habilidade das autoridades cubanas, que contaram com o imediato apoio das camadas populares, rechaçou a ação dos invasores e depois de três dias de combates Fidel comemorava uma nova vitória.

A insegurança representada pela ameaça constante de tão poderoso vizinho serviu como elemento catalizador para que o governo cubano fizesse enfim sua aliança econômica e militar com a URSS. Agora a guerra fria ganhava contornos dramáticos com a inserção de um país americano, geograficamente muito próximo dos EUA, no chamado bloco socialista.

As tensões atingiram seu ápice em 1962 com o episódio da "crise dos mísseis". Em desvantagem na corrida armamentista e sem tecnologia suficiente para atingir o território dos EUA com suas bombas, a URSS e o governo cubano pretendiam instalar na ilha parte do arsenal soviético. A reação contrária da Casa Branca foi imediata e levou o mundo a temer um conflito direto entre as duas superpotências. Durante esse período de enorme tensão, Nikita Kruschev, líder soviético, e John Kennedy, presidente dos EUA, acertaram os detalhes do pacto que levou a retirada dos mísseis da região do caribe e, em troca, os EUA comprometeram-se a respeitar a soberania da ilha.

A radicalização dos EUA com o bloqueio aéreo e naval e a expulsão de Cuba da OEA - Organização dos Estados Americanos - explicam a posição mais agressiva da política externa cubana que nos anos 60 e 70 participou ativamente da luta armada ao lado de grupos socialistas que tentavam tomar o poder em países da América e da África.

Enquanto isso governo Castro apresentava ao mundo inegáveis ganhos na área social com a eliminação do analfabetismo e uma das menores taxas de mortalidade infantil do continente americano. Programas nos setores educacional, saúde e habitação tornavam-se viáveis com recursos originados de relações comerciais com os países do bloco socialista. Com a URSS os cubanos desenvolviam transações altamente vantajosas vendendo açúcar com preços acima dos estabelecidos pelo mercado internacional e comprando petróleo com valores abaixo dos fixados pelo comércio exterior. Estima-se que os subsídios soviéticos somavam, extra-oficialmente, a cifra de cinco bilhões de dólares por ano.

A lua de mel com a URSS e com outros países socialistas começou a apresentar sinais de desgaste em meados dos anos 80 para se transformar em divórcio no final dessa mesma década. A ascensão de Mikahil Gorbatchev ao poder na URSS em 1985 e sua proposta de abertura econômica e política, Perestróika e Glasnost, respectivamente, revelaram ao mundo a fragilidade da economia soviética e a necessidade urgente de reformas. A agonizante situação interna levou a direção do partido comunista em Moscou a rever a ajuda financeira que era vital para o governo cubano.

A crise irradiada a partir da URSS rapidamente propagou-se pelo   bloco socialista numa velocidade inimaginável para todos os analistas em política internacional. A queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, causou perplexidade pela forma pacífica como ocorreu, mas também por revelar o estágio de putrefação dos regimes comunistas que dominavam a Europa do leste. Imediatamente todos esses países começam a viver um lento processo de reformas econômicas e políticas que avançam na direção da democracia e da privatização dos meios de produção. Para Cuba a conseqüência maior foi a perda de seus tradicionais aliados e, consequentemente, o agravamento de sua crise econômica.

Após 40 anos no poder o governo de Fidel dá evidentes sinais de esgotamento. A idade avançada do comandante, no entanto, não o impede de continuar seu discurso denunciando os EUA por suas ações que visam asfixiar a economia cubana. Mas a revolução perdeu grande parte de seu charme com as crescentes notícias de violações aos direitos humanos, da propagação da prostituição nas ruas de havana, da lentidão das reformas que timidamente respondem ao boicote comercial americano e, sobretudo, da ausência de perspectiva de democracia no país.

Para alguns, ainda agarrados à velha utopia comunista, o inevitável fracasso da globalização, a ampliação do grau de miséria e de desemprego nas áreas periféricas do mundo, são evidências de que o velho comandante Fidel Castro está no caminho correto. Para outros, no entanto, se o estágio atual do capitalismo internacional não é nada promissor, a solução também não está no anacrônico modelo estatizante, burocratizado e repressor do qual o governo cubano é um dos últimos exemplares.

Lembro, para finalizar, de um encontro com Mariela Castro, filha de Raul Castro, irmão de Fidel e considerado seu herdeiro natural. Era uma manhã fria, em Quito, capital do Equador, na casa de Osvaldo Guayasamim que morreu esse ano e é considerado um dos maiores pintores da América Latina. A emoção do encontro estava vinculada aos meus ideais da época e na ingênua e gostosa sensação de que a humanidade iria encontrar seu caminho na construção de uma sociedade mais digna. Ficaram desse momento da minha vida fotografias recolhidas em algum álbum, a agradável conversa em minha memória, uma gravura autografada na parede da sala e a imagem da cordilheira dos Andes quase que a me dizer: "menino, a vida não é constituída só por planície".


 
Este texto faz parte da 3ª edição do jornal Zoom julho/1999

 

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